A guerra aos pobres, o mito do progresso e a luta carroceira

Emmanuel Duarte Almada*

O genocídio dos povos indígenas, a construção de Belo Monte, a perseguição aos quilombos e o avanço do agronegócio são algumas das tantas expressões concretas do mito do progresso. Esse mito poderoso, que esteve na gênese da modernidade, sempre operou por meio da realização de guerras justas. As guerras justas, em nome do evangelho, mataram e escravizaram negros e indígenas. As guerras justas, em nome da democracia burguesa, destruíram o Iraque e estão preparando um projeto salvífico para a Venezuela. O Brasil, como parte da periferia do sistema mundo também foi forjado por uma constante guerra justa aos pobres. Assim, é preciso compreender a guerra travada contra os carroceiros em BH e tantas cidades pelo país como mais uma página dessa história.

É urgente que se escancare a luta de classes e a dimensão racial que sustenta a guerra contra os carroceiros, coordenada por parte dos movimentos de defesa dos direitos animais em todo o país. A alegação principal dos defensores do PL142/17, que pretende pôr fim a tração animal em Belo Horizonte, são os casos de maus tratos e o suposto regime de escravidão a que os animais estariam submetidos. Em primeiro lugar, é preciso ter claro que os carroceiros e carroceiras de BH não são coniventes com os casos de maus tratos e que estas situações são a exceção e não a regra entre essa comunidade. Aliás, os carroceiros e carroceiras tem demandado há muito tempo ações efetivas da prefeitura para coibir os casos de maus tratos, bem como a retomada do cadastramento. A ausência de um levantamento oficial do número de carroceiros e cavalos, bem como das condições de vida de ambos, tornam o argumento de combate aos maus tratos, no mínimo, leviano.

Em segundo lugar, a narrativa da escravidão animal nem de longe corresponde às formas de relação estabelecidas entre carroceiros e seus companheiros não-humanos. Os carroceiros compreendem os cavalos como companheiros de trabalho, membros de suas famílias e comunidades. Grande parte do dia de trabalho de um carroceiro é dedicada a inúmeros cuidados relacionados com a alimentação e saúde dos animais, como cortar e picar capim, trocar ferraduras, dar banho e escovar. Dias atrás, em meio a tensão da espera em frente a Câmara Municipal, um carroceiro me contava como sua égua ficava feliz ao fim de tarde, quando ele a levava para passear e brincar em uma área de pasto próximo a sua casa. A comunicação entre carroceiros e seus companheiros equinos é composta de um complexo conjunto de sons, cheiros e gestos, plenos de afetos e memória.

Um processo muito similar de criminalização de modos de vida ocorreu recentemente, quando esses mesmos grupos que se organizam contra os carroceiros moveram ações judiciais para proibir o abate de animais pelas tradições de matriz africana. Felizmente o STF julgou improcedente essa iniciativa claramente racista. A ausência de mobilizações e ações efetivas destes grupos direcionadas à proibição generalizada de criação e animais domésticos, consumo de carne e tantas outras formas de relação humano-animal que poderiam ser enquadradas como formas de escravidão, demonstra de forma inegável o caráter racista e classista desses arautos da modernidade.

O modo de vida carroceiro de fato é uma “contaminação” na paisagem urbana, cujo destino inexorável seria se modernizar. Sob a ideologia do progresso, não há espaço para práticas “arcaicas”, “atrasadas”, “da roça”. Todavia, nas casas, quintais e espaços de vida dos carroceiros, há sempre uma multidão de espécies animais e vegetais. Porcos, cavalos, mulas, burros, cabras, galinhas, preás, vacas, inúmeras espécies de capim, plantas medicinais e humanos formam comunidades multiespecíficas nas periferias do reino do concreto. A guerra contra os pobres também é uma guerra contra essas naturezas indomadas, contra essas paisagens fora do controle dos planejadores do progresso. Nessa batalha mais que humana, os carroceiros tem se autorreconhecido como Comunidade Tradicional, cujos direitos são protegidos pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, além dos artigos 215 e 216 da Constituição Federal que garantem o a salvaguarda da livre expressão da diversidade cultural brasileira. O apagamento da diversidade biocultural, contudo, é parte do projeto de desenvolvimento da modernidade.

O capitalismo verde e o ambientalismo liberal, marcas dos movimentos que se levantam contra os carroceiros, são dóceis frente à especulação imobiliária que avança sobre as áreas verdes da cidade e também se calam diante dos monopólios do transporte público. Na narrativa burguesa destes movimentos, os carroceiros são os vilões que atrapalham o trânsito e são uma grande ameaça para a biodiversidade. Nas suas publicações nas mídias e pronunciamentos públicos, os defensores da dignidade dos cavalos o fazem por meio da desumanização dos carroceiros. Estes são tratados como bárbaros, selvagens, ignorantes… O trabalho na carroça é sempre descrito como indigno e cruel. Em nossa sociedade de matriz escravocrata, o trabalho físico sempre foi relegado pelas elites aos indígenas e negros escravizados e posteriormente aos seus descendentes, hoje porteiros, diaristas, pedreiros… Logo, não é nada surpreendente que as elites, com suas mãos macias teclando do seu ipod, criem uma  imagem idílica de cavalos brincando pelos campos, livres da exploração pelos selvagens carroceiros.

Há ainda um elemento importante e relativamente sutil nessa empreitada bélica. Os carroceiros e carroceiras, a despeito da ausência do Estado e de todos os ataques sofridos, gozam de certa liberdade. Essa é uma dimensão de seu modo de vida constantemente reiterada pelos carroceiros. Não ter patrão e não ser por ele humilhado é motivo de orgulho. O controle do seu tempo e ritmo de trabalho, a partir do diálogo com seus companheiros animais, confere aos carroceiros uma liberdade pouco comum aos trabalhadores urbanos em geral. Todavia, o mito do progresso que alimenta a guerra contra os pobres não admite a possibilidade de sujeitos que não queiram de bom grado se submeter à lógica e às regras do mercado. Por isso o discurso contra os carroceiros sempre é acompanhado de propostas para inseri-los no mercado de trabalho ou dar a eles a possibilidade de um trabalho mais digno. A servidão moderna, não a busca por liberdade, é o horizonte desse projeto modernizador.

O PL142/17 está, pois, a serviço de um ideal de cidade higienista, classista e etnocêntrico. Embora seja protagonizado pelo campo da direita e extrema direita, esse projeto tem sido defendido até mesmo por membros da esquerda, seja por meio de uma defesa explicita do ideal modernizador travestido de direitos animais ou pela conivência e silêncio diante da guerra em curso contra esses milhares de trabalhadores. Mais do que nunca, nossa luta precisa ser contra o mito do progresso, o que significa também superar o eurocentrismo que segue levando o evangelho do desenvolvimento a todos os rincões do planeta. Os carroceiros e carroceiras estão em luta e, ao reafirmar que “a cidade é nossa roça”, ecoam o ideal zapatista de “um mundo onde caibam muitos mundos”.

*Kaipora – Laboratório de Estudos Bioculturais, Departamento de Ciências Biológicas, Universidade do Estado de Minas Gerais – Unidade Ibirité, emmanuel.almada@uemgbr

MANIFESTO do I Webinar de oceanografia socioambiental: diálogos e envolvimentos desde o sul global

Hoje, queremos cumprimentar a todas as pessoas dos diversos grupos sociais, comunidades, povos e organizações que vêm travando uma batalha contra a invasão de territórios e a destruição de modos de vida. As Américas foram, e ainda são, palcos de um dos maiores genocídios da história da humanidade. Este genocídio teve início com a chegada dos invasores do norte nas praias deste imenso continente transformando, dentre tantas outras, a região litorânea em uma zona de sacrifícios socioambientais, colonizando o que e quem remanesce até os dias atuais.

Não nos esqueçamos, no entanto, que o genocídio também é cultural. Os aportes técnicos e científicos subsidiados pelas ciências do mar tem impulsionado o des-envolvimento das zonas costeiras: as indústrias, os megaempreendimentos, as unidades de conservação marinhas, dentre outros, com práticas colonizadoras. A oceanografia clássica ou hegemônica é umas das ciências modernas que cumprem um papel na dominação, apagamento e extinção de culturas, corpos, pessoas e territórios ao passo que impõe uma monocultura marítima dentro dos marcos da modernidade. A violência é, portanto, político-epistêmica.

Nesse sentido, precisamos romper as estruturas racistas, machistas e LGBTQI+ fóbicas e todas as outras que mantém as opressões cotidianas e que também se fazem presentes dentro da ciência e da academia. O meio ambiente mais que nunca é visto como um objeto de negociação, uma fonte de recursos para (ab)uso de poucos e sujeito à apropriação pela lógica do capital. A nossa água não é mercadoria, o nosso solo não é mercadoria, a nossa vida não é mercadoria e só há um jeito: ser resistência! E em meio a isso, também há movimento. É um chamado a ser coerente e construir outra práxis dentro da oceanografia.

Façamos um compromisso de repensar nosso engajamento com o mundo marinho-costeiro sob outros paradigmas historicamente subalternizados e avançar co-construindo com as lutas e os saberes dos movimentos sociais, dos povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e outros grupos populares. Propomos um compromisso de construir uma nova oceanografia que cumpra seu papel na busca por justiça socioambiental. Neste dia 8 de junho, que as necessidades para uma transformação da sociedade não passem despercebidas, que possamos refletir sobre a oceanografia que temos e a oceanografia que queremos.

Convocamos a todas as pessoas que se propõem a refletir sobre o papel da oceanografia ao “I Webinário de Oceanografia Socioambiental: diálogos e envolvimentos desde o sul global”. É urgente transcender as limitações da lógica colonial e construir novas formas de fazer oceanografia. Pensemos em quais caminhos inclusivos devemos traçar para, no marco dos direitos humanos e da natureza, compartilhar uma oceanografia socialmente referenciada desde o sul global. Maiores informações em breve.

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Não é uma questão de guerra… ou Sobre o amor nos tempos da Covid…

Emmanuel D. Almada*

Dentre os diversos discursos construídos e disseminados sobre a pandemia, aquele que evoca a guerra contra o inimigo invisível se destaca. É que o discurso bélico sempre foi muito caro à modernidade. Desde a luta contra os bárbaros, as cruzadas, a subjugação e colonização dos povos ameríndios até a destruição dos quilombos e a infindável guerra às drogas, houve sempre um inimigo a ser derrotado, em nome da imposição de uma normalidade moderna, branca e eurocêntrica. O imaginário da modernidade que sustenta a missão civilizatória do ocidente é habitado por inimigos de um lado e outro das fronteiras do humano. Florestas, savanas, rios e animais foram, ao longo da história do ocidente, “a ferro e fogo”, reais inimigos a serem vencidos em batalhas sem fim. De forma similar, a descrição de insetos, fungos e microrganismos como pragas a serem combatidas compõe o discurso que sustenta a indústria dos agrotóxicos. Afinal, é dessa guerra bilionária que as grandes empresas produtoras de veneno se alimentam. A convocação para uma guerra humana contra o novo coronavírus é, em última análise, a perpetuação desse ímpeto de exercício de poder biopolítico do capital sobre todo o corpo vivo de Gaia.

Tal como as mudanças climáticas, o vírus tomou de assalto o chão sobre o qual se desenrola a arena geopolítica mundial, reestabelecendo os termos do “contrato natural” entre humanos e o planeta. E da mesma forma que aquela, a pandemia resulta das dissoluções das alianças entre animais, florestas e vírus geradas pela expansão do capital organizado sobre os territórios de vida mais que humanas. Seja nas florestas chinesas, na Amazônia ou no Cerrado, o avanço das fronteiras do agronegócio tem implicado em uma guerra multiespécies em que as comunidades não humanas, embora combalidas, também traçam, silenciosamente, suas novas táticas a cada batalha.

Para que se trave uma guerra é preciso que se cultive minimamente a ideia de existência de um inimigo comum. Como imagem especular deste inimigo constitui-se um “nós” que se torna, em certa medida, um todo homogêneo, uma mônada a serviço da guerra contra a natureza. Negros, indígenas, mulheres, crianças, todos, num passe de mágica, transforma-se parte de um exército com o dever divino de lutar pelo futuro humamo, ainda que na prática não possuam os mesmos direitos dos demais soldados. Omite-se o fato de que entre as causas da pandemia, estão as desigualdades abissais entre humanos. Sob o julgo do discurso da guerra, a massa de soldados humanos é instigada a odiar, ora o próprio vírus, ora seus supostos aliados, sejam eles morcegos, chineses, comunistas globalistas e petistas, claro. No léxico bélico, vacinas e medicamentos se tornam armas, trabalhadores da saúde são heróis numa guerra fantástica e espetacular contra um inimigo ardiloso e invisível, digna de um HQ da Marvel. O problema é que, ao aderir ao discurso da guerra, aceita-se também os seus mortos.

Há, no entanto, ao largo dessa guerra dos mundos, ao modo de H.G. Wells, uma outra história pandêmica sendo narrada. É a história do amor no tempo da Covid. Tal como o vírus, o amor também tem elevado grau de contágio e, felizmente, não há máscara ou álcool que o impeça de se espalhar. Falo do amor como revolução, como nos conclama a pensar o Pastor Henrique Vieira, do amor que fecunda o universo, como bem testemunham Frei Beto e o Monge Marcelo Barros. Mas o amor também é fenômeno biológico, como belamente demostrado por Humberto Maturana. Segundo o neurobiólogo chileno, “o amor é um fenômeno biológico que não requer justificação”. É o amor a emoção que fundamenta a socialização, uma vez que é ele que permite os encontros recorrentes entre os indivíduos. Para Maturana, o movimento contrário ao amor é a rejeição e a indiferença. Ao alargar o espectro do amor para os outros sistemas vivos, é possível compreender o amor como base de todas as alianças, não só entre humanos. É essa tendência de viver juntos, de atenção e aceitação da diferença que permitiu, ao longo da história ecológica da terra, o encontro entre espécies, inclusive entre parasitas e seus hospedeiros. Foi assim, num processo amoroso, como nos ensinou Lynn Margulis, que há bilhões de anos, na imensidão dos mares primevos, uma bactéria aeróbica penetrou em outra anaeróbica (como parasita ou como alimento, não se sabe), formando os primeiros eucariotos dos quais descendemos.

Seria possível, desta forma, assumindo-se o amor como princípio de organização e diversificação da vida no planeta, construir uma contra narrativa pandêmica. Se aceitarmos o vírus, bem como seu encontro, não há mais inimigos.  Por consequência, não há guerra a travar. Isso não significa, absolutamente, uma passividade frente aos efeitos desse encontro entre espécies (sic.). Trata-se de pensar todo o aparato científico e técnico, não como um arsenal bélico, mas como artefatos desse encontro, mediadores para o cuidado e manutenção do curso das vidas humanas. É o jogo autopoiético que caracteriza o encontro entre sistemas vivos descrito também por Maturana e Varela, onde muda-se para continuar a ser (o mesmo).

Para regenerar o mundo é preciso cultivar o amor em meio à pandemia. É isso que está ocorrendo nas vilas e bairros e favelas do país. Como sempre fez, o povo se organiza, partilha, se encontra. Com parte dos humanos reclusos, as outras espécies e entes da natureza também refazem e multiplicam seus encontros e alianças, seus amores. O amor, enquanto encontro e aceitação, tem poder criador.

O governo da necropolítica que comanda o país está em constante guerra, se nutre do ódio. Seus inimigos são tantos que talvez considere o vírus como um grande aliado nas incessantes batalhas contra trabalhadores pobres, negros, mulheres, indígenas, LGBTs, comunidades do campo e da cidade. Frente a essa escalada de indiferença e rejeição de existências, é preciso, em nome do Bem Viver, cultivar o amor. Isso significa restabelecer alianças, promover encontros, mais do que físicos, de histórias e vidas. Assim precisará ser também em nosso mundo pós pandemia. A tarefa de cuidar de florestas, savanas, rios e mares, é, no fim das contas, promover encontros. O que se faz ao plantar uma árvore senão criar alianças entre raízes, fungos, solos e atmosfera?

Não nos cabe a construção de um novo normal, precisamos de um outro estado de coisas, que permita emergir os mundos rejeitados e subjugados pelo capital. E o contrário do capitalismo é o amor, em suas mais diversas manifestações individuais, comunitárias, políticas e na história das espécies. É o amor, uma vez que é encontro e aceitação, o elemento que tece e refaz “a teia da vida”.

*Kaipora – Laboratório de Estudos Bioculturais, Departamento de Ciências Biológicas, Universidade do Estado de Minas Gerais – Unidade Ibirité, emmanuel.almada@uemgbr

XI Simpósio Brasileiro de Etnobiologia e Etnoecologia

CARTAZ

A décima primeira edição do Simpósio Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia, uma promoção da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia (SBEE), ocorrerá no Campus da Universidade Estadual de Feira de Santana no período de 22 a 27 de novembro de 2016, vinte anos após a realização do I Simpósio e Fundação da SBEE. O tema central do evento, marcando esse histórico momento, intitula-se Feira + 20: Bem-viver e pós-desenvolvimento.

Mais informações aqui.